SETEMBRO AMARELO

Setembro Amarelo: você sabe mesmo o que é?

Iniciada no Brasil em 2015, a campanha em prol da prevenção ao suicídio já ganhou notoriedade nas redes sociais. Assim como o “Outubro Rosa”, campanha para a prevenção contra o câncer de mama, e o “Novembro Azul”, voltado para as doenças masculinas – com ênfase na prevenção do câncer de próstata -, o “Setembro Amarelo” também se enquadra nas campanhas que envolvem meses e cores. Mas você realmente sabe o que é essa campanha, por que é amarela, por que é em setembro, por qual motivo todos devemos nos engajar ou qual é o real impacto e diferença que ela faz na sociedade?

Origem

O suicídio é um tema recorrente e cada vez mais pautado na sociedade. Especialmente em tempos de pandemia, é imprescindível conscientizar a população e tratar do tema, que é um grande tabu – o que precisa ser desconstruído. Com isso, tornou-se necessário criar uma campanha contra esse grande problema social.

Em território brasileiro, a campanha foi uma iniciativa do Centro de Valorização da Vida (CVV), em parceria com o Conselho Federal de Medicina (CFM) e a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). Por trás de toda campanha de prevenção, existe uma história, um contexto ou um motivo para a escolha do mês e da cor para relacionar com a causa. Com o Setembro Amarelo não é diferente.

O Setembro Amarelo teve sua cor decidida pelo caso que inspirou a campanha. O amarelo tomou o mundo quando o tema é suicídio, devido ao caso de um jovem de 17 anos, chamado Mike Emme, que tirou a própria vida em 1994, em seu carro amarelo. Os pais do adolescente, no funeral, distribuíram fitas amarelas em cartões com mensagens de apoio para quem estivesse passando por tempos complicados. Desta forma, a cor virou o símbolo da campanha de prevenção ao suicídio.

Quanto ao mês de setembro, que é o último antes das campanhas contra as doenças femininas e masculinas, foi decidido por já haver uma data voltada para a causa dentro do mês: trata-se do Dia Mundial da Prevenção do Suicídio, que acontece em 10 de setembro e é lembrado anualmente, com diversas campanhas de conscientização e temas que são debatidos, desde 2003.

O engajamento é fundamental

Em tempos nos quais muitas pessoas prezam pela compreensão e empatia – a palavra do momento – nas redes sociais, outras muitas não as praticam. O suicídio não é um problema isolado. Aparecendo entre as 20 principais causas de morte no mundo, é responsável pelas mortes de 800 mil pessoas por ano no planeta. Isso equivale à uma morte a cada 40 segundos. É um dado alarmante.

Mortes por suicídio cresceram nos últimos anos em território brasileiro, ao contrário da taxa mundial. Segundo pesquisa de 2016, realizada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), a taxa de mortes desta forma aumentaram 7% em comparação a 2010, último ano da pesquisa. No mundo, foi registrada queda de 9,8% no período.

Também de acordo com a OMS, 90% dos casos de suicídio podem ser evitados, existindo prevenção em tais situações. No Brasil, país estatisticamente mais deprimido da América Latina, um cidadão tira a própria vida a cada 45 minutos, sendo, segundo números oficiais, 32 mortes a cada dia. Além disso, o número registrado de tentativas de suicídio é cerca de três vezes maior do que o de casos em que o indivíduo vem, de fato, a falecer.

Assim como a AIDS durante os anos 80, o suicídio é um tabu na sociedade. Porém, assim como a doença sexualmente transmissível que ajudou a ceifar vidas até mesmo de pessoas famosas como Freddie Mercury e Cazuza, o suicídio, que também vitimou famosos como Kurt Cobain, o tabu precisa ser desconstruído para que haja uma melhora. A conscientização leva à melhora, nem que seja uma pessoa. Uma vida jamais será pouco, nunca será “apenas” uma vida.

Buscar ajuda pode ser um ato fundamental para a manutenção da vida. Sessões de psicoterapia são imprescindíveis na luta contra doenças como depressão e outras tantas que afligem a saúde mental da humanidade, especialmente em tempos nos quais tudo é tão rápido, instantâneo e sem tempo de maiores explicações. Se aliadas com os fármacos corretos, em determinados casos, as terapias podem salvar diversas vidas. Há um tabu, inclusive, em realizar as sessões, principalmente em países onde a população tem menos acesso à informação.

A cultura de “homem não chora” ou “se está indo ao psicólogo, é porque é doido” está mudando. Com uma nova geração, expressar sentimentos e cuidar da saúde mental passou a ser mais encorajado. Sessões de terapia podem prevenir problemas futuros. Quanto mais cedo a pessoa inicia a psicoterapia, mais fácil será de mudar possíveis hábitos ruins e estresse. Em uma sociedade na qual as pessoas fazem terapia, tudo seria menos estressante, os desentendimentos ocorreriam menos vezes e o medo de demonstrar sentimentos seria cada vez menor. A humanidade viveria de forma mais saudável, assim como se todos praticassem esportes, seguissem dietas balanceadas ou não poluíssem tanto o ar.

No entanto, séculos de pensamentos opressores desenvolveram na sociedade uma necessidade de ficar “na defensiva”. Quanto mais na defensiva, maior o medo de viver, sentir e compartilhar experiências. A fobia social tornou-se algo comum. Temos medo de nós mesmos, vivemos em um mundo que não para nem na hora de dormir e não cuidamos da saúde mental. Por isso, o suicídio precisa ser debatido. Ele pode ocorrer em qualquer família, qualquer casa, com qualquer pessoa. A forma de tornar-se menos vulnerável a esse tipo de problema é engajando-se na causa do Setembro Amarelo, iniciando sessões de terapia, praticando a tão falada empatia.

Em setembro, podemos ver as redes sociais todas pintadas de amarelo: pessoas com filtros sobre a campanha, imagens de cor amarela e por aí vai. Além da internet, o amarelo toma conta de diversos cartões postais. O Cristo Redentor, o Congresso Nacional e o Beira-Rio – estádio do Internacional de Porto Alegre – já se iluminaram diversas vezes. É sempre importante que autoridades, marcos históricos e grandes empresas demonstrem apoio verbal e visual ao Setembro Amarelo, trazendo informação às pessoas, podendo, assim, evitar mais mortes do tipo. A informação e a desconstrução de mitos são as vacinas contra o suicídio, o que deve motivar a todos divulgarem a campanha. O engajamento é extremamente necessário para que as informações corretas cheguem a todos e mortes sejam evitadas.

Todas as pessoas, empresas e instituições podem participar da campanha e divulgar a importância da prevenção do suicídio ao povo. O CVV recomenda diversas formas de engajamento a quem quiser participar da campanha: colocação do laço amarelo em sua fachada, símbolo das campanhas de prevenção, e/ou iluminação do prédio com a cor amarela; fixação de cartazes da campanha “Falando Abertamente” em locais de circulação; divulgação do banner da campanha em site institucional, incluindo link para o site do Setembro Amarelo; divulgação da campanha em redes sociais ou páginas pessoais; distribuição da cartilha “Falando Abertamente Sobre Suicídio”, elaborada pelo CVV – Centro de Valorização da Vida (como opção, pode ser acompanhada de fita amarela para a roupa ou pulso, estimulando a adesão à campanha); confecção e distribuição de faixas, camisetas, marcadores de página, folders, adesivo etc. O Setembro Amarelo muda a visão da sociedade quanto à terapia e os cuidados com a mente e precisa ter a mesma divulgação que outras campanhas de prevenção a doenças.

Não é “frescura”, nem bobeira, preguiça, ou falta de Deus, muito menos algo que deva ser ignorado. Essas são as formas de pensar que a campanha combate. Não espere o suicídio atingir alguém próximo ou doenças como a depressão chegarem até você, divulgue e participe do Setembro Amarelo, inclua a campanha em todos os meses, as semanas e dias de sua vida. Inicie terapia, cuide de sua saúde mental como cuidaria da saúde do corpo, converse, exponha o que sente, não guarde para si os problemas da vida, porque eles podem ficar cada vez maiores. Corte o mal pela raiz e cuide de si como cuidaria de um amigo querido ou um parente que ama. Ame-se.

A campanha em tempos de pandemia

Agravando uma crise que já era grave, a pandemia da covid-19 preocupa especialistas. É esperada uma alta nos índices de pessoas tirando as próprias vidas. Chegando em setembro com a doença ainda à solta no Brasil, é necessário redobrar os cuidados com a saúde, seja física ou mental. Usar máscara e lavar bem as mãos, no momento, será tão importante quanto conversar, pensar em atividades e evitar pensamentos calamitosos. O Setembro Amarelo vem, em 2020, no melhor momento possível. Crises financeiras, historicamente, fazem subir as taxas de suicídio. Momentos de pandemia fazem aumentar todos os tipos de medo. Os dois, aliados, podem ser trágicos. Para piorar a situação, o Brasil possui apenas um terço dos leitos psiquiátricos recomendados pela OMS, o que demonstra o descuido com a saúde mental.

O ser humano é, por natureza, nômade. Na história da Terra, apenas recentemente nossa espécie passou a ser mais estática, devido à agricultura. Isso fica evidenciado pela forma como os crimes são punidos: reclusão e isolamento social, justamente o que está acontecendo atualmente. Ficar tanto tempo em casa faz com que o tempo para pensar aumente. Na situação de uma pessoa já psicologicamente vulnerável, o resultado pode ser desastroso.

Outro grande problema é o abuso de drogas, sejam lícitas ou ilícitas. É o medo do alcoolismo, por exemplo, tomar conta da sociedade brasileira, assim como tomou dos esquimós, que vivem em regiões isoladas no norte da América do Norte e acabam caindo no álcool e em drogas ilícitas como forma de aliviar os problemas e a solidão, apenas criando outros problemas cada vez maiores. Sem a possibilidade de sair com amigos, muitas pessoas vêm recorrendo às substâncias buscando diversão dentro de casa.

As previsões não são boas: some uma possível recessão – que pode tornar-se uma depressão – econômica, a falta de empregos, a instantaneidade do mundo digital, o isolamento social, pessoas psicologicamente vulneráveis e a facilidade para comprar drogas, até mesmo pela internet, e tenha um resultado catastrófico. Por isso, neste ano, é ainda mais importante divulgar e recomendar cuidados com a saúde mental, a principal função da campanha ocorrida sempre em setembro.

Como ajudar em momentos ruins

Existem muitas coisas que se pode fazer para ajudar um ente querido, um amigo ou até mesmo um conhecido que esteja passando por momentos de tristeza, seja por luto, por término de um relacionamento ou por outros diversos problemas da vida. É recomendado não julgar, em hipótese alguma, a dor do outro, pois só ele sabe como dói, isso vai possibilitando que a pessoa crie confiança para expressar outros problemas que virão. Além disso, a tão falada empatia é fundamental: uma mensagem que demonstre carinho, uma ligação ou alguns minutos reservados exclusivamente para uma pessoa podem fazer toda a diferença.

As diversas formas de demonstrar interesse constante na pessoa também são fundamentais: não deixe de chamar o amigo recluso para atividades que costumavam fazer, mesmo que decline o convite. No caso de notar uma situação mais grave, contate os familiares da pessoa ou alguém que possa ajudar de uma forma mais eficaz.

No mais, seja um bom amigo: recomende uma visita ao psicólogo, ressalte a importância das sessões na saúde mental do ser humano e lembre constantemente a pessoa (e a si) mesmo que tudo tem saída.

Assista também a nossa Live Dia Mundial da Prevenção ao Suicídio com o professor André Bordini (CRP 06/75018).